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Raul Belém Machado

Vida e obra de Raul Belém Machado pelo dramaturgo Jota Dangelo, por ocasião do recebimento da comenda de mérito legislativo - homenagem prestada pela Câmara Municipal de Belo Horizonte, em maio de 2012:

A pacata cidade de Araguarí, ali no Triângulo Mineiro, não poderia imaginar que seria o berço de um dos mais talentosos homens de teatro de Minas e do País. Digo homem de teatro porque é abrangente e, ainda assim, não qualifica devidamente o talento de Raul Belém Machado. É quase impossível dizer, claramente, em que aspecto das artes cênicas, ou mesmo das artes, o arquiteto Raul Belém Machado melhor se consagra: na cenografia? Como figurinista? Como mestre? Como aderecista? Como desenhista? Na cenotecnia? Na escultura? Como desenhista? Na direção de espetáculos? Impossível definir em que setor destas atividades o também ator Raul Belém mais se destacou.

Seu primeiro contato com o teatro deu-se com Italo Mudado, de saudosa memória, o criador e diretor do Teatro Clássico, um grupo que enveredou, desde a década de 60 do século passado, pelos labirintos complexos do teatro grego. Ali, em 1965/66, Raul tocava sua flauta, pois tem formação musical, e fazia parte do coro falado em “Agamenon”. Como diz a lenda, quem se aproxima do teatro, e nele adentra, não mais o abandona: mesmo quando se afasta dos palcos, mentalmente, emocionalmente, continua perambulando pelos bastidores, pelos camarins, pelas coxias, pelos urdimentos, em busca da deixa que lhe permita a réplica. O teatro nunca mais saiu de sua vida e foi uma simbiose perfeita: o teatro lhe deu vida e ele continua dando vida ao teatro. Sua relação com o Teatro Experimental, que durou décadas, teve início quando foi o cenógrafo de “Procura-se uma rosa”, em 1969, um espetáculo exotérico dirigido por Carlos Alberto Ratton e encenado uma única vez no Festival de Inverno da UFMG em Ouro Preto. Sarcástica, irreverente, esdrúxula, crítica, inusitada, a encenação não agradou às autoridades locais: o elenco teve que sair às escondidas de Ouro Preto diante de ameaças que incluíam agressões físicas. Naquela época o Teatro Experimental possuía uma Kombi que largou em disparada da cidade histórica, levando o elenco, diretor e técnicos do TE.

Neste mesmo ano de 69 minha amizade com Raul Belém criou raízes, troncos, folhagem e deu frutos inesquecíveis nas décadas seguintes. Foi neste 69 que Rogério Falabella, Wilma Henriques e eu mesmo, nos lançamos numa produção independente do texto de John Osborne, “Geração em revolta”, sob a direção de Rogério. Raul foi o cenógrafo. Foi sua primeira grande obra cenográfica, hiper-realista, feita com um apuro cenotécnico inigualável, como não se vê mais hoje em dia por aqui. No final daquele mesmo ano, já para o Teatro Experimental, Raul partiu para uma cenografia totalmente inovadora, adequada à dramaturgia nada convencional de “Futebol, alegria do povo”, texto, na verdade um roteiro, escrito por Carlos Alberto Ratton e por mim. Foi a partir desta peça que insisti para que Raul não fizesse apenas cenografia, mas também atuasse como figurinista dali por diante. E foi exatamente o que ele fez com uma competência rara e um discernimento impar.

É praticamente impossível estabelecer uma ordem de grandeza, de beleza, de qualidade nos inúmeros trabalhos que Raul executou como cenógrafo e como figurinista. Mas permito-me deixar expressa a minha humilde opinião, muito mais balisada na emoção provocada pela obra do que pela análise técnica da cenografia que enfocarei. Assim, no terreno do realismo, são destaques os cenários de “Geração em Revolta”, “Os pequenos burgueses” e “A Casa de Bernarda Alba”; entre os espetáculos de som e luz, a cenografia de “Uma certa sexta-feira”, que cobria toda a fachada da Rodoviária, de 1972, e a versão de palco de “A Conjuração”, de 1990, no Palácio das Artes; inesquecível os cortinados de “Calígula”, e a criatividade cenográfica interativa de “Baal”, de 1972, talvez o maior exemplo do talento esplendoroso de Raul Belém; também merecem destaque o cenário de “A Invasão”, de Dias Gomes, com direção de Haydée Bittencourt para o Teatro Universitário e o experimentalismo cenográfico de “Frei Caneca” e “Os Riscos da Fala”, do Teatro Experimental, além do formato art-déco da cenografia de “A Cantora Careca”, dirigida por José Antônio de Souza, e os cenários de “Galileu, Galilei” e “Rasga Coração”, ambos dirigidos por Pedro Paulo Cava. Não me referi a figurinos, pois seria impossível encontrar algum que não estivesse em alto nível de propriedade e adequação aos espetáculos.

As dimensões dos palcos da cidade não satisfizeram Raul Belém. Ele precisava, com seu talento, ir mais longe e partir para a monumentalidade. Foi o que fez quando enveredou, funcionário do Palácio das Artes, para a cenografia de óperas e de espetáculos de dança, com o mesmo brilhantismo, com a mesma dedicação, com a mesma paixão, esta última requisito indispensável da criação artística. Impossível também não enfatizar aqui o papel desempenhado por Raul enquanto formador e incentivador de cenotécnicos e aderecistas, culminando com a criação do Centro Técnico de Produção da Fundação Clovis Salgado pelo qual se empenhou com denodo e ao qual se dedicou com todas as suas convicções. Sua participação como docente em cursos de formação em artes cênicas é digna de louvor.

Sinto-me no dever de ressaltar aqui uma outra faceta do inexcedível talento de Raul. Tanto ele como eu fomos, e seguramente somos, desde sempre, fascinados pela concepção dos cortejos festivos das Escolas de Samba. Durante mais de 30 anos, em São João del-Rei, com o apoio da figurinista Mamélia Dornelles, minha mulher, fui o carnavalesco de uma das escolas de Samba daquela cidade histórica, e em alguns dos enredos encenados tive como parceiro o amigo Raul Belém. Por sua vez, também ele lançou-se às aventuras carnavalescas, particularmente em Diamantina e em Ponte Nova. E aqui mesmo, no Grêmio Recreativo Escola de Samba Cidade Jardim, em 1985, realizou um desfile absolutamente inovador, nas alegorias e nos figurinos, com predominância do branco no enredo “Universo Rosiano: Guimarães Rosa, matuto e pensador”. Juntos, fizemos uma monumental alegoria africana para o Bloco Caricato “Os Invasores”, do Bairro de Santo Antônio, campeão de desfile em 1988. Estivemos juntos no Teatro Experimental, em O Grupo, e na Casa de Cultura Oswaldo França Junior. Mais do que a convivência profissional, minha amizade por ele é a de um irmão, e minha admiração pelo seu talento a de um ator e diretor que sabe a importância de técnicos na estruturação de um espetáculo. Estamos diante de um verdadeiro ícone das artes cênicas do país, respeitado nacional e internacionalmente, merecedor desta e de muitas outras homenagens que ainda estão por vir. Não foi por acaso que o Projeto Memória, da Secretaria de Cultura do Estado de Minas Gerais, realização da Fundação Clovis Salgado e do Instituto Cultural Sérgio Magnani, escolheram Raul Belém Machado para ser o primeiro biografado através do livro “O arquiteto da cena”, publicado em 2008. Aos aplausos de todos, junto os meus e o meu abraço fraterno a este arquiteto da ilusão.

   
  depoimentos
   
  Por Mariluce Duque, arquiteta, sócia de Raul na Lazuli Arquitetura desde 1996:
 
Sempre apertado de costura, como gostava de falar, muitas vezes custava a resgatá-lo dos esconderijos onde se recolhia nos seus processos de criação. Dos vários telefones celulares que ganhou dos amigos na intenção de dotar-lhe de uma antena para melhor rastreá-lo, o que funcionava mesmo era mapear seus passos e cercá-lo pessoalmente nos palcos dos teatros ou através dos celulares que formavam a rede Belênica. Nosso encontro se deu por acaso, quando fiz um levantamento arquitetônico do Cine Teatro de Contagem, contratada pela prefeitura que me colocou em contato com o arquiteto que iria me orientar quanto as particularidades do levantamento. Algum tempo depois, recebo um telefonema do próprio Raul a me convidar para trabalhar com ele no projeto arquitetônico do Teatro Isabela Hendrix. Guardo na lembrança a imagem, onde nós dois sentados na plateia do teatro Isabela Hendrix e ele a me explanar sobre os conceitos da arquitetura cênica. Depois subimos na grelha do palco e caminhamos sobre a laje da platéia até a cabine. Neste momento agradeci o privilégio de estar ali na presença daquele homem que logo reconheci como um mestre, detentor de um conhecimento que se estende além da intelectualidade. Daí pra frente não nos separamos mais, mesmo nos perdidos que comumente me dava, sentia-me segura no entendimento dos conceitos tão bem colocados por ele. Meu amor revelado pela gratidão que sinto por tê-lo presente na minha vida , iluminando meu caminho ao em ensinar com tanta generosidade, sabedoria e afeto uma especialidade que é de conhecimento de poucos. Saber que sua obra se estende através e além dos limites da matéria, sobre a forma viva de seus discípulos, que formou nas várias disciplinas que atuou, me conforta da saudade de não tê-lo mais fisicamente por perto. Então, bejo, bejo, bejo...como gostava de se despedir.
   
   
 

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